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Uma tarde de verão

O sol batia numa das paredes sem reboque da construção ,
ecoavam lá de dentro o grito estérico das crianças :
-Tá guardando caixão !
O sol da tarde caminhava preguiçoso pelo céu onde as pipas faziam acrobacias.
Os gritos da praça pareciam uma canção cuja o refrão era :
- Foi gol sim , ladrão ! - ou então - …47,48,49,50! Lá vou eu !
A praça , um universo inteiro cabia dentro da praça .
Super-heróis da TV que virei para liquidar o vilão
e ainda ficava com a mocinha, convencida por mim que era por um digno final feliz
Lembro da coceira nas pernas, que por maior fosse, nunca foi maior a vontade de rolar gramado abaixo.
Da terra em baixo da unha, das cicatrizes do rolimã, dos pés descalços,
machucados , mas nem por isso parávamos de jogar bola
Olhar o céu fazia os olhos chorar, mas ninguém perdia a cruza das pipas
Subir na arvore podia ser perigoso... mas e daí? as melhores goiabas, pitangas, amoras sempre estavam lá no alto .
E quando, sem pedir licença, uma nuvem negra tampava o sol , nem o toró acabava com a brincadeira. Porque agora um rio se formou no meio da rua
e os chinelos são barcos que descem a ladeira.
A brincadeira só acabava mesmo quando uma mão nos puxava pela orelha.
As vezes penso por andará aquele menino,
se morreu ou se ainda está por aí,
Vindo de vez em quando visitar o homem
para ensina-lo a brincar de novo
para lembra-lo das alegrias na imensidão das pequenas coisas.
E longe ainda posso vê-lo acenado brincando como quem chama de volta, naquela praça,
na ladeira,
ou na construção onde o sol batia preguiçoso sobre a sua parede sem reboque .
Escrito por Nilson Filho às 13h15
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